Necrópole Romana das Portas de Santo Antão (84-90), Lisboa

Estes trabalhos arqueológicos foram realizados, em 2016, no âmbito da reabilitação do edifício 84-90 da Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, abrangendo ações de acompanhamento e de escavação arqueológica.

Durante o acompanhamento da obra verificou-se a presença de aterros de cronologia moderna/contemporânea, relacionados com a construção do edifício. Em níveis inferiores, intervencionados em função da construção de uma cave, foi detectado um espaço de necrópole de período Romano, enquadrável entre os séculos III e IV d.C.

A descoberta deste núcleo de uma ampla necrópole romana, que existiu ao longo da via que ligava a cidade de Olisipo, a Lisboa romana, para norte, levou à realização de uma escavação arqueológica durante a qual foram identificadas e integralmente escavadas 9 sepulturas. Sob este espaço, foi ainda registado um nível de escorrência de terras que continha material enquadrável na Pré-História Recente, possivelmente originários da ocupação do Calcolítico/Idade do Bronze do topo da colina de Sant’Ana.

Para além das 9 sepulturas, na área da necrópole foi intervencionada outra estrutura que possivelmente teria também função funerária. As sepulturas dividiam-se entre estruturadas e em covacho simples, escavados no solo, com orientações Sul-Norte e Sudeste-Noroeste. Por sua vez, as estruturadas dividiam-se entre as que possuíam cobertura com lateres, a formar duas águas (Sepulturas 3, 7 e 8) e cobertura realizada com pedras de pequena a média dimensão, que cobriam lateres dispostos em V (Sepultura 4).

No que se refere ao ritual funerário, podemos inferir que 5 dos indivíduos (sepulturas 1, 2, 5, 6 e 9) teriam sido inumados dentro de caixões de madeira, considerando a disposição e a existência de pregos de grandes dimensões no interior das sepulturas, tendo-se o esquife desintegrado ao longo do tempo. A maioria dos enterramentos era acompanhada por espólio votivo, composto por cerâmica comum (taças, potes, bilhas, jarros), em Sigillata clara africana, lucernas (duas destas decoradas), recipientes em vidro, objetos metálicos, entre estes anéis, numismas, agulhas e um compasso.

O conjunto material referido permitiu-nos enquadrar as presentes sepulturas numa época tardia da ocupação romana de Olisipo, mais concretamente em pleno século III d.C. ou, pelo mais, atingindo os inícios do IV d.C.

 

 

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